Diagnóstico de TDAH em adultos: a pergunta pelo exame
Você explica para o clínico geral que vive esquecendo compromissos, que não consegue terminar o que começa e que isso vem de longe. No fim, pergunta: "não tem um exame para ver se eu tenho TDAH?". E a resposta é: não é bem assim.
Essa é uma das dúvidas mais comuns de quem busca o diagnóstico de TDAH em adultos. Faz sentido: estamos acostumados a confirmar problemas de saúde com exames de sangue ou de imagem. No TDAH, o caminho é outro.
Neste texto, você vai entender como o diagnóstico é feito, quem pode fazê-lo e qual é o papel da avaliação neuropsicológica e do laudo.
Qual exame detecta TDAH em adultos?
Não existe exame de sangue, ressonância, tomografia ou eletroencefalograma que detecte TDAH. O diagnóstico de TDAH é clínico: ele é construído a partir da história da pessoa, da observação e de uma avaliação cuidadosa dos critérios.
Isso não significa que exames não tenham lugar. Em alguns casos, um médico pode solicitar exames para investigar outras condições clínicas que também afetam a atenção, a energia e a memória. Eles ajudam a descartar outras explicações, mas não confirmam o TDAH.
Como é feito o diagnóstico de TDAH no adulto
Segundo o DSM-5-TR, o diagnóstico de TDAH considera três pontos centrais:
- sintomas de desatenção e/ou hiperatividade e impulsividade presentes antes dos 12 anos;
- presença em dois ou mais contextos, como trabalho, casa, estudos e relacionamentos;
- prejuízo claro no funcionamento.
No adulto, isso exige reconstruir a história. Como era na escola? As dificuldades apareciam em casa também? O que mudou quando as responsabilidades aumentaram? Às vezes, conversar com alguém que conviveu com a pessoa na infância traz informações valiosas.
Outro ponto essencial é o diagnóstico diferencial: entender se as dificuldades se explicam melhor por ansiedade, depressão, alterações do sono, outra condição do neurodesenvolvimento ou uma combinação delas. O DSM-5-TR, por exemplo, permite que TEA e TDAH sejam diagnosticados juntos. Veja mais em TDAH ou ansiedade.
Por que tantos adultos só chegam ao diagnóstico agora
Muitas pessoas passaram a infância sem que ninguém pensasse em TDAH. Tiravam notas razoáveis com muito esforço, eram vistas como "desligadas" ou "agitadas" e seguiram em frente. As dificuldades costumam ficar mais visíveis quando a vida adulta soma trabalho, contas, casa e, às vezes, filhos.
Esse atraso parece ser ainda maior entre mulheres. Um estudo de Amoretti e colaboradores, apresentado no Congresso do ECNP (European College of Neuropsychopharmacology) em outubro de 2025, acompanhou 900 adultos recém-diagnosticados com TDAH em Barcelona: as mulheres receberam o diagnóstico, em média, aos 28,96 anos, e os homens aos 24,13 anos, embora os sintomas tivessem começado em idade semelhante.
Quem diagnostica TDAH?
O diagnóstico de TDAH pode ser feito por profissionais habilitados, como médicos (psiquiatras e neurologistas, por exemplo) e psicólogas e psicólogos com formação na área, por meio de uma avaliação. Muitas vezes, o trabalho é multiprofissional: a avaliação neuropsicológica e o acompanhamento médico se complementam.
Um cuidado prático: algumas instituições, empresas, planos de saúde ou benefícios podem exigir laudo médico ou documentos específicos. Por isso, se você precisa do diagnóstico para uma finalidade concreta, vale verificar antes o que é exigido nesse caso.
Para quem pensa em começar um tratamento com medicação, o acompanhamento médico é necessário, já que a prescrição é feita por médico.
Na prática, não existe um único caminho certo. Há quem comece pela consulta médica e depois faça a avaliação neuropsicológica para aprofundar a investigação, e há quem faça o caminho inverso. O importante é que as informações conversem entre si e que você saiba para que vai usar o resultado.
O papel da avaliação neuropsicológica no diagnóstico
A avaliação neuropsicológica investiga, de forma estruturada, como funcionam a atenção, a memória, as funções executivas (planejamento, organização, controle de impulsos, flexibilidade) e os aspectos emocionais. Ela geralmente acontece em 6 a 10 sessões de cerca de 50 minutos:
- Primeira consulta (anamnese): a sua história, as queixas atuais e o que você espera da avaliação;
- Sessões de avaliação: entrevistas, observação clínica e instrumentos específicos;
- Análise, laudo e devolutiva: a integração de tudo o que foi observado, explicada em uma sessão própria.
Além de ajudar a responder se há ou não TDAH, a avaliação mostra pontos fortes e dificuldades, o que orienta o tratamento de forma mais personalizada. Saiba como ela funciona em detalhes em avaliação de TDAH em adultos.
Laudo de TDAH: o que é e para que serve
Ao final da avaliação neuropsicológica, a psicóloga elabora o laudo neuropsicológico, um documento regulamentado pela Resolução CFP nº 06/2019. Ele descreve o motivo da avaliação, os procedimentos, a análise e a conclusão, com orientações.
O laudo pode ser útil para o tratamento, para o acompanhamento médico e para entender as próprias necessidades no trabalho ou nos estudos. Para quem mora fora do Brasil, a forma como o documento é aceito depende das regras locais, e vale conversar sobre isso na primeira consulta.
A Monica Sarah Salomon é psicóloga (CRP 12/13557), pós-graduada em Neuropsicologia e em TEA, com formação em TCC. Ela atende adultos e idosos 100% online, em português, de qualquer cidade ou país. Se fez sentido para você, veja como funciona o agendamento.
