TDAH no trabalho: quando saber o que fazer não basta
Segunda-feira, nove da manhã. Você abre o computador com a lista de tarefas pronta. Responde um e-mail, abre uma aba, lembra de outra coisa, começa uma terceira tarefa. Ao meio-dia, a tarefa mais importante ainda nem foi aberta. Na quinta, ela é feita às pressas, na madrugada anterior ao prazo.
Muitos adultos vivem esse ciclo e se sentem culpados, achando que falta disciplina ou interesse. Às vezes, as dificuldades têm outra explicação. O TDAH no trabalho é uma das razões pelas quais adultos procuram avaliação.
E não é algo raro: uma meta-análise global de Song e colaboradores, publicada em 2021 no Journal of Global Health, estimou que 2,58% dos adultos têm TDAH persistente desde a infância e que 6,76% apresentam sintomas de TDAH na vida adulta, o que corresponderia a cerca de 140 milhões e 366 milhões de adultos no mundo em 2020.
Como o TDAH pode aparecer na rotina profissional
O TDAH envolve dificuldades com atenção, controle de impulsos e funções executivas, que são as habilidades usadas para planejar, organizar, iniciar, acompanhar e concluir tarefas. No trabalho, isso pode aparecer de várias formas:
- Procrastinação persistente: adiar tarefas importantes, mesmo sabendo das consequências;
- Prazos: dificuldade em estimar quanto tempo algo vai levar e tendência a deixar tudo para o último momento;
- Organização: e-mails acumulados, arquivos perdidos, várias tarefas começadas e poucas terminadas;
- Reuniões: dificuldade em manter a atenção em falas longas ou interromper os outros sem querer;
- Esquecimentos: compromissos, combinados e detalhes que escapam;
- Oscilação: dias de produtividade intensa e dias em que nada sai do lugar.
Muitas pessoas com TDAH também são criativas, rápidas e boas em situações novas ou de crise. As dificuldades não definem a pessoa, mas podem ter um custo alto quando não são compreendidas.
Esse custo nem sempre aparece no desempenho. Há adultos que entregam tudo, mas à custa de noites mal dormidas, revisões intermináveis e um esforço que ninguém vê. Com o tempo, isso pode trazer exaustão, ansiedade e a sensação de estar sempre devendo. Em mulheres, esse esforço silencioso é especialmente comum, como explicamos em TDAH em mulheres adultas.
Procrastinação é sempre TDAH? Quando investigar
Não. Todo mundo procrastina às vezes. A procrastinação também pode estar ligada a ansiedade, perfeccionismo, depressão, sobrecarga, falta de sentido no trabalho ou ambientes com demandas excessivas.
Pelo DSM-5-TR, o diagnóstico de TDAH considera sintomas antes dos 12 anos, presentes em dois ou mais contextos e com prejuízo no funcionamento. Por isso a avaliação olha para a história completa, e não só para o emprego atual. Se a dúvida envolve a ansiedade, leia TDAH ou ansiedade: como diferenciar.
Estratégias gerais que costumam ajudar na organização
As estratégias abaixo são gerais. Elas podem ajudar algumas pessoas, mas não substituem uma avaliação nem um acompanhamento individual. O que funciona varia muito de pessoa para pessoa.
- Tirar da cabeça: usar uma única lista ou agenda, em vez de confiar na memória ou em vários papéis espalhados.
- Dividir em passos pequenos: trocar "fazer o relatório" por "abrir o arquivo e escrever o título". Começar costuma ser a parte mais difícil.
- Tornar o tempo visível: alarmes, blocos de tempo com início e fim e lembretes antes dos prazos.
- Reduzir distrações: fechar abas e notificações durante tarefas que exigem concentração.
- Criar prazos intermediários: combinar entregas parciais pode ajudar a evitar que tudo fique para a última hora.
- Planejar pausas: intervalos curtos e previstos ajudam a manter a energia e evitam longos períodos de exaustão.
Se você já tentou muitas estratégias sem resultado, isso não é sinal de fracasso. Pode ser um sinal de que vale entender melhor como a sua atenção funciona.
E a conversa com o trabalho?
Compartilhar ou não um diagnóstico no trabalho é uma decisão pessoal. Algumas pessoas preferem não contar e apenas negociar ajustes práticos, como prioridades mais claras, combinados por escrito ou um ambiente com menos interrupções. Outras se sentem mais seguras explicando o que vivem. Não existe resposta certa, e esse é um tema que pode ser trabalhado com calma em psicoterapia.
O papel da avaliação neuropsicológica e da TCC
Avaliação: entender antes de mudar
A avaliação de TDAH em adultos investiga atenção, memória, funções executivas e aspectos emocionais. Ela também considera outras explicações possíveis, como ansiedade, transtornos do humor ou autismo. Geralmente acontece em 6 a 10 sessões de cerca de 50 minutos e termina com o laudo e uma sessão devolutiva, em que os resultados e as orientações são explicados com calma.
Além de esclarecer a hipótese diagnóstica, a avaliação mostra pontos fortes e dificuldades específicas, o que ajuda a pensar em estratégias mais adequadas para você. Por exemplo: entender se a maior dificuldade está em iniciar tarefas, em manter a atenção ou em organizar o tempo muda bastante o tipo de apoio que faz sentido.
TCC: transformar compreensão em prática
A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) trabalha com objetivos concretos. No contexto do TDAH, pode ajudar a construir rotinas de organização, lidar com a procrastinação e cuidar da autocrítica e da ansiedade que costumam se acumular depois de anos de dificuldades. O processo é individual e os resultados dependem de cada caso.
Atendimento online, que cabe na sua rotina
A Monica Sarah Salomon é psicóloga (CRP 12/13557), pós-graduada em Neuropsicologia e com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental. Ela atende adultos e idosos 100% online, em português, para quem vive em qualquer cidade do Brasil ou no exterior.
O formato online permite encaixar as sessões na rotina de trabalho, sem deslocamento. Se fez sentido para você, veja como funciona o agendamento.
